Leio. Releio. Volto a ler. Viro páginas. Avanço linhas.
Palavras minhas eu assino, dos outros eu transcrevo, dum passado que não teve futuro, dum presente que nunca exi stiu.
Frases que me fazem sorrir, outras que me inundam o olhar.
Histórias que fazem a minha história, remotas ou recentes, e que por muitas letras que destrua ficarão sempre na memória.

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Desejo a você total liberdade para que rasgue páginas neste espaço. Rasgar, romper, transformar algo em outro novo, mesmo que a si mesmo.
A vida é uma sucessão de rasgos, remendos, feituras e escolhas.
Esteja LIVRE!



quinta-feira, 11 de junho de 2009

"A Escola de Vidro" - Ruth Rocha



Naquele tempo eu até que achava natural que as coisas fossem daquele jeito. Eu nem desconfiava que existissem lugares muito diferentes...

Eu ia pra escola todos os dias de manhã e quando chegava, logo, logo, eu tinha que me meter no vidro. É no vidro!

Cada menino ou menina tinha um vidro e o vidro não dependia do tamanho de cada um, não! O vidro dependia da classe em que a gente estudava.

Se você estava no primeiro ano ganhava um vidro de um tamanho. Se você fosse do segundo ano seu vidro era um pouquinho maior.
E assim, os vidros iam crescendo à medida em que você ia passando de ano.

Se não passasse de ano era um horror. Você tinha que usar o mesmo vidro do ano passado. Coubesse ou não coubesse. Aliás, nunca ninguém se preocupou em saber se a gente cabia nos vidros. E pra falar a verdade, ninguém cabia direito.

Uns eram muito gordos, outros eram muito grandes, uns eram pequenos e ficavam afundados nos vidros, nem assim era confortável. Os muito altos, de repente se esticavam e as tampas dos vidros saltavam longe, às vezes até batiam no professor. Ele ficava louco da vida e atarraxava a tampa com força, que era pra não sair mais.

A gente não escutava direito o que os professores diziam, professores não entendiam o que a gente falava... As meninas ganhavam uns vidros menores que os dos meninos. Ninguém queria saber se elas estavam crescendo depressa, se não cabiam nos vidros, se respirava direito.

A gente podia respirar direito na hora do recreio ou na aula de educação física. Mas aí a gente já estava desesperado de tanto ficar preso e começava a correr, a gritar, a bater uns nos outros. As meninas coitadas, nem tiravam os vidros no recreio. E na aula de educação física elas ficavam atrapalhadas, não estavam acostumadas a ficarem livres, não tinham jeito nenhum para a educação física.

Dizem, nem sei se é verdade, que muitas meninas usavam vidros até em casa. E alguns meninos também. Estes eram os mais tristes de todos. Nunca sabiam inventar brincadeiras, não davam risada à toa, uma tristeza! Se a gente reclamava? Alguns reclamavam. E então os grandes diziam que sempre tinha sido assim; ias ser assim o resto da vida.

Uma professora, que eu tinha dizia que ela sempre tinha usado vidro, até para dormir, por isso é que ela tinha boa postura. Uma vez um colega meu disse pra professora que existe lugares onde as escolas não usam vidro nenhum, e as crianças crescem à vontade. Então a professora respondeu que era mentira, que isso era conversa de comunistas. Ou até coisa pior..


Tinha um menino que tinha que sair da escola porque não havia jeito de se acomodar nos vidros. E tinha uns que mesmo quando saiam dos vidros, ficavam do mesmo jeitinho, meio encolhidos, como se estivessem tão acostumados que até estranhavam sair dos vidros.

Mas uma vez, veio para a minha escola um menino que parece que era favelado, carente, essas coisas que as pessoas dizem pra não dizer que é pobre. Aí não tinha vidro pra botar esse menino. Então os professores acharam que não fazia mal, não, já que ele não pagava a escola mesmo...

Então o Firuli, ele se chamava Firuli, começou a assistir as aulas sem estar dentro do vidro. O engraçado é que Firuli desenhava melhor que qualquer um, o Firuli respondia as perguntas mais depressa que os outros, o Firuli era muito mais engraçado... e os professores não gostavam nada disso... afinal, o Firuli podia ser um mal exemplo para nós...

E nós morríamos de inveja dele que ficava no bem-bom, de perna esticada, quando queria ele se espreguiçava e até meio que gozava da cara da gente que vivia preso.

Então um dia um menino da minha classe falou que também não ia entrar no vidro. Dona Demência ficou furiosa, deu um coque nele e ele acabou tendo que se meter no vidro como qualquer um. Mas no dia seguinte duas meninas resolveram que não iam entrar no vidro também: - Se o Firuli pode porque é que nós não podemos:

Mas dona Demência não era sopa. Deu um coque em cada uma delas e lá se foram elas, cada uma pro seu vidro... Já no outro dia a coisa tinha engrossado. Já tinha oito meninos que não queriam saber de entrar nos vidros. Dona Demência perdeu a paciência e mandou chamar seu Hermenegildo que era o diretor lá da escola.

Seu Hermenegildo chegou muito desconfiado: - Aposto que essa rebelião foi fomentada pelo Firuli. É um perigo esse tipo de gente aqui na escola. Um perigo! A gente não sabia o que queria dizer fomentada, mas entendeu muito bem que lê estava falando mal do Firuli.

E seu Hermenegildo não conversou mais. Começou a pegar os meninos um por um e enfiar dentro do vidro. Mas nós estávamos loucos pra sair também e pra cada um que ele conseguia enfiar no vidro já tinha dois fora. E todo mudo começou a correr do seu Hermenegildo, que era pra ele não pegar a gente e na correria começamos a derrubar os vidros.

E quebramos um vidro, depois quebramos outro e outro mais e Dona Demência já estava na janela gritando: SOCORRO! VÂNDALOS! BÁRBAROS! Pra ela bárbaro era xingação. Chamem os Bombeiros, o Exército de Salvação, a Polícia Feminina...

Os professores das outras classes mandaram, cada um, um aluno para ver o que estava acontecendo. E quando os alunos voltaram e contaram a farra que estava na 6ª série todo mundo ficou assanhado e começou a sair do vidro.

Na pressa de sair começara a esbarrar uns nos outros e os vidros começaram a cair e quebrar. Foi um custo botar ordem na escola e o diretor achou melhor mandar todo mundo pra casa, que era pra pensar num castigo bem grande, pro dia seguinte. Então eles descobriram que a maior parte dos vidros estava quebrada e que ia ficar muito caro comprar aquela vidraria toda de novo.

Então diante disso seu Hermenegildo pensou um bocadinho e começou a contar pra todo mundo que em outros lugares tinha umas escolas que não usavam vidro nem nada. E que dava bem certo, as crianças gostavam bem mais.

E que de agora em diante ia ser assim: nada de vidro, cada um podia se esticar um bocadinho, não precisava ficar duro nem nada, e que a escola agora ia se chamar Escola Experimental.

Dona Demência que apesar do nome não era louca nem nada, ainda disse timidamente: - Mas seu Hermenegildo, Escola Experimental não é bem isso...

seu Hermenegildo não se perturbou: - Não tem importância, A gente começa experimentando isso, depois a gente experimenta outras coisas...

Foi assim que na minha terra começaram muitas coisas que um dia ainda vou contar.
(Ruth Rocha, 1986)

Um comentário:

Yes! Blumenau disse...

Achei ótimo que o nome do menino é Firuli. Meu gato Pirulito, cujo apelido é FIRU, também não quis entrar no vidro lá em casa.
E certamente é o mais feliz dos 5 gatos. O mais maluquinho, o mais instável, o mais imprevisível, o mais carinhoso, o mais criativo, o queridinho da mamis.